Carro a álcool é orgulho do Brasil; ideia já defendida por Henry Ford há mais de um século

Nenhum país investiu tanto no etanol quanto o Brasil, em três grandes ondas que marcaram a história do setor automotivo e energético nacional. A trajetória que levou o etanol a ser combustível de massa no país — do programa governamental pioneiro à tecnologia flex e agora à eletrificação compatível com álcool — tem raízes em uma visão que vinha de muito longe: a de Henry Ford, que defendia o uso do álcool como combustível no início do século passado.

A visão de Ford

No começo do automóvel, o futuro do transporte estava em aberto: havia correntes de opinião a favor da eletricidade, de motores a vapor e de motores a combustão. Henry Ford, no entanto, acreditava no álcool etílico como combustível promissor. Entre as razões estavam a produção local do insumo, a queima mais limpa em comparação com a gasolina da época e a possibilidade de reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados. Para Ford, o combustível do futuro “viria do campo”.

Por que a gasolina venceu, temporariamente

O avanço da indústria petrolífera e a descoberta de grandes reservas de petróleo descaracterizaram, por um tempo, a vantagem do álcool. A queda do preço da gasolina impulsionada pela expansão das refinarias e a própria legislação proibitiva em alguns momentos — como a proibição quase total da produção de álcool durante o período da legislação seca nos Estados Unidos — fizeram com que a alternativa do álcool perdesse força no mercado global.

O Brasil e as três ondas do etanol

A questão ressurgiu com força no Brasil após choques externos no preço do petróleo. Diante da alta dependência de combustíveis importados, o governo brasileiro lançou um programa estatal para estimular o cultivo da cana-de-açúcar e a produção de álcool como combustível. Em menos de uma década, carros movidos exclusivamente a etanol chegaram a representar a esmagadora maioria das vendas de novos veículos, alcançando um pico histórico. A liderança do etanol, contudo, foi interrompida quando a economia do setor mudou: a queda do preço do petróleo e a alta do açúcar tornaram a cana mais atrativa para fins alimentares e industriais do que para combustível, e problemas de abastecimento abalaram a confiança do consumidor.

A segunda grande onda veio com a tecnologia flex: veículos capazes de rodar com gasolina, álcool ou qualquer mistura entre ambos, o que eliminou a obrigatoriedade de escolher um combustível ao comprar o carro e devolveu competitividade e conveniência ao etanol no mercado nacional.

A terceira onda: híbridos e eletrificação com álcool. A transição atual combina eletrificação e compatibilidade com o álcool. Montadoras passaram a adaptar tecnologias híbridas de modo a aceitar o etanol, promovendo uma nova etapa de renovação do combustível no parque automotivo. Exemplos dessa convergência já estão presentes na produção nacional de híbridos flex e de modelos plug-in que aceitam álcool. Também houve alterações nas misturas vendidas nos postos: a parcela de etanol anidro na gasolina foi elevada, reforçando o papel do biocombustível nas formulações comerciais.

O cenário internacional

A recepção ao etanol na Europa tem sido heterogênea e muito dependente de políticas fiscais e de tributação. Onde houve incentivos por meio da redução de impostos sobre o biocombustível, o consumo disparou. Um exemplo é o caso de um combustível com alta concentração de álcool — adotado em alguns mercados europeus — cujo preço ao consumidor pode ficar bem abaixo do da gasolina comum quando a carga tributária sobre o etanol é reduzida. Em países onde o etanol é tributado como a gasolina, ele é utilizado majoritariamente em pequenas misturas com gasolina ou destinado à exportação, e não cresce como combustível para frotas de veículos leves flex. Em uma exceção notável, um país nórdico implementou políticas por um período que incentivaram fortemente o uso do etanol.

Economia e ambiente

No mercado doméstico, o preço do etanol tem se mantido, em média nacional, em patamar inferior ao da gasolina comum, o que mantém a paridade econômica favorável para muitos proprietários de veículos flex. Essa vantagem depende da relação de preços entre os combustíveis: quando o etanol fica em torno de setenta por cento do preço da gasolina, torna-se vantajoso para uso nos motores flex. Ainda assim, a expansão da cana-de-açúcar e do setor sucroalcooleiro seguem sob escrutínio ambiental devido a ligações potenciais com desmatamento e uso da terra, o que traz um componente de debate público e regulatório sobre o futuro do biocombustível.

Perspectiva

A história do etanol no Brasil mostra ciclos influenciados por fatores tecnológicos, econômicos e políticos. Desde a defesa pioneira de um empreendedor estrangeiro até políticas nacionais de incentivo, passando por inovações que permitiram flexibilidade ao consumidor e integração com a eletrificação, o etanol continua a ocupar papel central nas discussões sobre segurança energética, economia rural e descarbonização do transporte. O desafio para o futuro é conciliar competitividade econômica, estabilidade de oferta e sustentabilidade ambiental, enquanto novas gerações de veículos e combustíveis seguem em desenvolvimento.